Nomes, caixas, definições, a normalidade nunca foi tão direcionada e tão exclusiva. Se você não se encaixar nos padrõezinhos dela é capaz de se encaixar em mais algumas milhares de definições que a sociedade tem dado para conseguir evitar o medo do desconhecido.

Por vezes é difícil nos desligarmos dessas locais onde tentam nos forçar entrar para bel prazer do outro, posso dizer por conhecimento próprio de quem usou máscaras por anos para ser aceitado dentro de grupos e que mesmo após várias reconstruções de si mesmo ainda enfrenta diversos questionamentos em suas sessões de terapia.

Essas desconstruções e reconstruções pessoais são muito doloridas por conta de como as pessoas julgam umas as outras, por conta dos vícios preconceituosos do passado além dos preconceitos em si de fato passados disfarçadamente como “conservadorismo” e “tradições”, tão enraizadas em no subconsciente coletivo que chega a ser uma afronta para essas pessoas cogitar que o que fazem é errado.

Para piorar, por vezes, recebemos preconceitos de pessoas próximas enquanto nos descobrimos de formas novas ou estamos explorando nossos gostos.

Turbante e camiseta direto dos vendedores da República

Querer abraçar parte de minha ascendência e minha cor me levaram a um contato maior com roupas coloridas e tecidos africanos, uma vontade enfiocada no meio do meu amago e reprimida por medo da repressão. A autoafirmação da minha identidade como homem preto teve seu despertar tardio e é, como todo o resto, uma estrada torta e cheia de buracos.

Preto, afrobege, pardo, negro, mas caramba eu não sou branco, me deixem.

Não surpreendentemente recebi os comentários amargos e doídos sobre todas as minhas mudanças, essas e outras por vir.

No entanto, faz algum tempo que comecei a mudar minha resposta aos estímulos externos e o resultado foi que mesmo desacelerando eu não voltei a criar máscaras para ser quem as pessoas querem ou esperam que eu seja, dessa vez eu segui firme e continuei com as descobertas.

Todo esse processo levou tempo, energia, sofrimento e muitas horas de terapia

Só nós mesmos temos o direito de definir quem somos e nossa aparência não deveria refletir verdades que não as que só nós sabemos qual. Todos esses preconceitos e julgamentos vem, na minha visão, de uma posição de medo do desconhecido, medo de ter sua realidade despedaçada.

Se faz necessário trilhar um caminho onde o EU seja definido por si mesmo e não pelos outros.

Além disso, foi a partir desses passos que eu comecei cada vez mais a entrar em contato com pessoas, grupos, locais e situações que ao invés de exigir algo de mim me amparam na caminhada. É um processo sem fim mas é um processo que considero valioso de ser vivido.

Foto da capa Edwin Andrade - Unsplash